Por Jayr Santos
Nem todo luto começa em um velório.
Às vezes, ele começa quando um filho sai de casa, quando um relacionamento termina, quando uma amizade se desfaz, quando perdemos um emprego, um projeto, uma condição financeira ou até mesmo uma versão de nós mesmos na qual acreditávamos.
Há perdas que não são reconhecidas socialmente. Ninguém envia flores. Não há cerimônia, despedida ou palavras de consolo. Mas, por dentro, alguma coisa mudou e precisa ser elaborada.
Na perspectiva psicanalítica, o luto não diz respeito apenas àquilo que perdemos, mas ao vínculo que tínhamos com aquilo que foi perdido. Por isso, duas pessoas podem experimentar acontecimentos semelhantes e reagir de maneiras completamente diferentes. Cada perda toca uma história, desejos, expectativas e investimentos afetivos particulares.
O sofrimento aparece, muitas vezes, porque uma parte de nós ainda está ligada ao que já não existe da mesma maneira. É como se a realidade tivesse mudado antes que o nosso mundo interno conseguisse acompanhá-la.
Por isso, elaborar uma perda não significa simplesmente “aceitar e seguir em frente”. Significa, pouco a pouco, encontrar uma nova maneira de existir sem precisar negar o que foi vivido.
E algumas perdas exigem tempo. Outras exigem palavras.
Falar sobre aquilo que se perdeu pode ajudar a transformar uma ausência em experiência elaborada, em vez de deixá-la permanecer como uma ferida sem nome.
Talvez você esteja vivendo um luto que ninguém percebe. Uma mudança. Uma despedida. Um sonho interrompido. Uma relação que terminou. Uma pessoa que continua viva, mas já não ocupa o mesmo lugar em sua vida.
Não tenha pressa de superar. Dê um nome ao que você perdeu. E, se perceber que sozinho está difícil elaborar essa experiência, procure um espaço de escuta.
Porque algumas perdas não precisam ser esquecidas. Precisam ser compreendidas para que a vida possa continuar encontrando novos sentidos.
Comentários
Carregando comentários...
Deixe um comentário