Por Jayr Santos

Quem acompanhou as produções cinematográficas do final dos anos 1990 e início dos anos 2000 certamente se lembra do impacto da trilogia Pânico, da Paramount Pictures. Nas telas, o medo aparece com máscara, perseguição e gritos. Na vida real, porém, o pânico não precisa de um assassino escondido para assustar alguém. Às vezes, ele simplesmente chega.

O coração dispara. Falta ar. O corpo treme. Vem a tontura, o suor frio, a sensação de que algo terrível está acontecendo. E, no meio de tudo isso, uma pergunta pode surgir: “Eu vou morrer?”

Para quem vive uma crise de pânico, o medo é absolutamente real, mesmo quando não existe um perigo visível.

QUANDO O CORPO ASSUSTA MAIS DO QUE A REALIDADE

A cantora Wanessa Camargo relatou sua primeira crise de pânico aos 20 ou 21 anos. Estava em um restaurante com amigas quando começou a sentir falta de ar, taquicardia e um intenso mal-estar. A sensação foi tão assustadora que acreditou estar morrendo e pediu para ser levada ao hospital. Os exames, porém, não encontraram alterações físicas significativas. Ela demorou a aceitar que uma experiência tão concreta pudesse ter origem psíquica (SANTANA, 2022).

Essa é uma das experiências mais dolorosas de quem sofre com o pânico: o corpo sente algo que a razão não consegue explicar.

O transtorno do pânico está relacionado aos transtornos de ansiedade e pode provocar crises súbitas de medo intenso acompanhadas de diversos sintomas físicos. Entre eles estão: taquicardia, falta de ar, dor ou pressão no peito, tontura, náusea, tremores, formigamento, calafrios, sensação de estar fora do próprio corpo e medo de morrer ou perder o controle (BIBLIOTECA VIRTUAL DE SAÚDE, 2019).

E talvez uma das maiores dificuldades seja justamente não saber quando a próxima crise virá.

A pessoa começa a evitar lugares, multidões, viagens, filas ou situações em que imagina que não conseguirá receber ajuda. Aos poucos, aquilo que começou como uma crise pode transformar-se em medo de ter outra crise. E a própria vida vai ficando menor.

Segundo Piovesan, aproximadamente 280 milhões de pessoas no mundo sofrem com transtorno do pânico. No Brasil, a Pfizer também aponta milhões de pessoas afetadas (PIOVESAN, 2024; PFIZER, 2020).

QUANDO A ANGÚSTIA NÃO ENCONTRA PALAVRAS

É aqui que a psicanálise pode oferecer outra forma de escuta.

A ansiedade não é simplesmente uma inimiga que precisa desaparecer. Ela também pode funcionar como um sinal de que alguma coisa dentro de nós está pedindo atenção.

Às vezes, existe um medo que ainda não conseguimos nomear. Uma lembrança que permanece viva. Um desejo que aprendemos a esconder. Uma raiva que nunca nos permitimos sentir. Uma experiência de abandono que ficou sem elaboração. Um conflito que foi sendo empurrado para dentro até que o corpo encontrou uma maneira de falar.

Isso não significa que toda crise de pânico tenha uma única causa psíquica. Significa reconhecer que, para algumas pessoas, o sintoma pode carregar uma história que ainda precisa ser escutada.

Na perspectiva psicanalítica, dois conflitos podem aparecer com frequência nesses quadros.

O primeiro envolve amor e ódio. Algumas pessoas aprenderam que precisam ser sempre boas, amorosas e disponíveis. A raiva, então, torna-se um sentimento difícil de reconhecer. Mas aquilo que não encontra espaço para ser elaborado não desaparece. Pode permanecer produzindo tensão no interior do sujeito.

O segundo envolve dependência e independência. Precisamos do outro, mas também precisamos conquistar autonomia. Quando essa relação se torna conflituosa, depender pode significar sentir-se sufocado, enquanto ser independente pode despertar o medo de ser abandonado.

Esses conflitos podem aparecer nos relacionamentos, no casamento, no trabalho e em tantas outras experiências da vida adulta.

TALVEZ SEU CORPO ESTEJA PEDINDO PARA SER ESCUTADO

O pânico assusta porque parece anunciar uma catástrofe. Mas uma crise não significa que você esteja enlouquecendo ou que sua vida tenha chegado ao fim.

Existe tratamento. Existe possibilidade de compreensão. Existe caminho para recuperar espaços da vida que o medo foi ocupando.

O acompanhamento psiquiátrico é importante para o diagnóstico e, quando necessário, para o tratamento medicamentoso. A psicoterapia também pode contribuir para compreender e elaborar as experiências relacionadas à ansiedade.

Na psicanálise, o objetivo não é apenas silenciar o sintoma. É abrir espaço para perguntar: o que essa angústia está tentando dizer?

Talvez, por trás do coração acelerado, exista uma história que nunca conseguiu ser contada.

E quando essa história começa a encontrar palavras, aquilo que antes apenas assustava pode, pouco a pouco, começar a fazer sentido.


Referências

SANTANA, Claudia Feitosa. Wanessa em: Com a síndrome do pânico, eu me tornei dona da minha história. Podcast Plenae, 04.09.2022.

PIOVESAN, Márcia. Organização Mundial da Saúde (OMS): cerca de 280 milhões de pessoas no mundo têm transtorno do pânico. Terra/Saúde, 11.10.2024.

PFIZER. Quando o pânico vira doença. 06.02.2020.

BIBLIOTECA VIRTUAL DE SAÚDE. Síndrome de Pânico. Ministério da Saúde, jul. 2019.